Segunda-feira, Maio 26, 2008

Finda a Via

aos poucos
fim da viagem
na borda da vida
a vida contemplo

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

água + algo

Submersos


esta, a terceira semana que chove
ininterruptamente sobre a cidade
e mesmo os fantasmas
entreolhando-se de suas cortinas
estão fartos
e confusos, imaginando um tempo de sol

nas ruas navegam os segredos
dos dias de sêca
como os sofás deslocados volverão
a seus lugares ?
agora, moramos todos no telhado
de nossas casas
e a altura da água marca nossas perdas

por serem o que poderíamos
perder.

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

Quasissilêncio

O Poema É Caracol

No ponto extremo do galho:
vidas
a flor batom carmim
o melro a lagarta o passarim
e a borboleta lá estão
o cio verde do abacateiro
o desejo do trigo
a ânsia do joio
nada nasce espontaneamente
então, moída a semente
deixar de ser
fruto
a natureza transformada suco
virar pão
ração

passar ser
só mente
arar o mar colher nuvens
chuva sobre o alvo travesseiro
sonhar dúvidas
à sombra de meus cogumelos
veneno
por saber
que em mim
não há oásis possível
mergulho no lago em que refletidos
passam
às vezes delfins
e sempre tubarões
por isso agora moro dentro
de um caracol.

Neo Léo

Movimento no ar do Espaço Bananeiras, de meu amigo Leonardo Videla, prevejo novos êxtases possíveis em Santa Tereza. Vide filipeta.

Sábado, Outubro 06, 2007

jardins da infância


Jiu Jitsu (Masculino & Feminino)
a

Plantei cravos e crisântemos
plantei raízes firmes
caules fortes, rijos
plantei folhas bem verdes e
uma única rajada
sementes de vários tamanhos e
nacionalidades
sete dobermanns no meu jardim
sorriem de óculos Ray-ban
não fui eu quem os plantou
rangem e jogam golfe
jogam golfe e babam
cravos e crisântemos.

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

Back to Jack


Um dos livros fundamentais da geração beatnik, On The Road de Jack Kerouac, completa meio século de lançamento e é objeto de múltiplas comemorações e reedições mundo afora.
Talvez o aniversário devesse ser celebrado em abril de 2001, porque Jack Keroauc (1922-1969) terminou o primeiro rascunho de On the Road, uma crônica de seu périplo beat pelos os Estados Unidos nos finais da década de 40, nesse mês do ano de 1951. Foi um ataque de inspiração literária que lhe permitiu escrever em apenas três semanas em seu apartamento em Manhattan o que logo seria uma novela de 307 páginas. Em sintonia com o espírito da geração beat, possuído pela musa da corrente de consciência, ou ao menos estimulado pela benzedrina, o livro saiu de sua máquina de escrever em um só rolo de papel que media mais de 36 metros. Assim reza a lenda. Na verdade, Kerouac montou um enorme rolo de papel carbonado e se estimulava não mais do que com café, segundo de depreende em vários livros sobre o escritor e sua obra que se editam este mês. Porém, o surto de Kerouacmania se produz agora, e não há seis anos atrás, porque neste mês de setembro se celebra o aniversário de sua publicação, 05 de setembro de 1957 pela Viking Press, em uma versão sem as passagem mais explícitas, além de outras alterações. Entretanto, a editora Viking publica On The Road: The Original Scroll, o rolo original que Kerouac escreveu em 1951, uma versão que, segundo o escritor Luc Sante, é muito melhor que a novela já que “prescinde de afetações literárias”. Ainda mais interessante para os leitores e para o diretor de cinema Walter Salles (que filmará On The Road tal como filmou Diários da Motocicleta de Che Guevara), é que as senas de sexo, ausentes na novela de 1957, são incluídas no primeiro rascunho de 1951.
No manuscrito original, Kerouac utiliza os nomes verdadeiros dos personagens da novela, como Neal Cassady (que no livro é Dean Moriarty), o pré-beatnick, escritor e ladrão de carros que nos anos sessenta provaria com Ken Kesey o LSD recém saído dos laboratórios do Pentágono, e a quem Luc Sante qualifica como “um dos maiores personagens da literatura estadunidense, sem necessidade da interferência da imaginação de Kerouac”. Cassidy enfeitiçou Kerouac, e lhe convidou acompanha-lo em suas andanças nas estradas do país de 1947 a 1948 desde Nova Iorque à Califórnia, passando por dezenas de cidades, entre elas Nova Orleans, matéria-prima para On The Road. “Com a chegada de Dean Moriarty se iniciou a parte de minha vida que poderia chamar-se Minha Vida a Caminho”. Foi a primeira obra do gênero, o início da subcultura adolescente e 50 anos depois, a novela de Kerouac segue acrescentando conteúdo às tormentas adolescentes. Calcula-se que ainda se venda anualmente 100.000 exemplares do livro.
Outro personagem que aparece no rascunho por seu nome é o poeta Allen Ginsberg, conhecido como Carl Marx na novela, por suas convicções políticas que o autor, mais atraído por jazz e misticismo, jamais entendeu. No rolo original Sal Paradise, o narrador, é, por óbvio, Jack Kerouac.
Em realidade, segundo explica John Leland (cronista de subculturas do The New York Times) em seu livro The Lessons Of The Road, Kerouac, longe de ser o porta-bandeira da rebeldia, era bastante conservador. E por isso que terminou enfrentando o poeta Allen Ginsberg (autor do não menos fundamental poema Uivo) e outros companheiros da rota beat. “Sal e Dean são tradicionalistas, buscando conexões com velhos valores e não formas de mata-los”.
Até há grupos cristãos norte-americanos que já reivindicam Kerouac como um autor cristão. Leeland reflexiona que a herança de On The Road não é Woodstock e sim o rock cristão. Mas a kerouacmania não acabará aqui. City Lights, a editora vinculada à famosa livraria de São Francisco, berço do movimento beat, publicará postumamente em 15 de setembro uma autobiografia da primeira mulher de Kerouac, Edie Kerouac-Parker ( You´ll Be Okay: My Life With Jack Kerouac) E a editora Viking também já lançou no mercado uma edição especial pelo 50º aniversário de publicação da novela.
Por sua parte a Library of América edita no próximo mês outras cinco de suas novelas de estrada em uma compilação que se chamará Kerouac: Road Novels 1957 – 1960. E afinal, em 05 de setembro, o povo de Lowell, em Massachusetts, onde o autor nasceu celebrará um recital de doze horas de duração sobre a novela que marcou a fogo várias gerações.
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r
Matéria escrita por Andy Robinson para os jornais Clarin e La Vanguardia, publicada em 31/08/2007 e traduzida por mim.

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Diàrio



LATRINAMÉRICA

La miente cucaracha
com antena parabólica
sua asa hemisférica
seu vôo dodecafônico
negro policromático
deus tão longe de ti
dança exilado
da
sudamérica.
z
xz
Bem, estoy en Argentina. Bs As. Bon vino. Caminadas pela ciudad. Dias en sol. Soletud.
A imágem é de uma catalao mui loco. Lolo Blanco é o nome do cara.

Quarta-feira, Agosto 22, 2007

Agosto


O G. do poema abaixo era o Guilherme. Ele, como eu, gostava de literatura e artes plásticas. Especificamente as russas do início do século XX até meados. Hoje, não conto nos dedos os anos que G. morreu. Fazem quinze nesse agosto de 2007. Alto, como eu, G. não possuía, porém, nada de minha feiúra e timidez, ao contrário, seu sorriso iluminava o ambiente. Qualquer ambiente. E nele o ideal helênico de inteligência e beleza se fazia manifesto em sua plenitude. Show de bola. Louro de cachinhos, incríveis olhos azuis, porte atlético. Proporção e harmonia.

Quando conheci G. a palavra era: degelo. Berlim se despira de seu muro. Havia uma explosão criativa do ar. Glasnost. Nós, seríssimos, estudávamos. “O Deslocamento da Utopia” era o nome da coisa. O ocidente era inundado então por um maravilhoso acervo soviético. Abertura tão grande, que muito do que entendíamos havia de ser radicalmente mudado. Como não conhecíamos Schostakovich por exemplo ? E Gorky dedo-duro de Stálin ! Como alguns puderam ser tão grandiosos e outros, vermes ? etc, etc. G. voltara recentemente da Suécia. Era o tal. Usava um impermeável laranja vivo como só os nórdicos concebem. O seu passar interrompia a aula, movimentava glóbulos oculares e a imaginação das meninas.

Tornamo-nos amigos. Unidos pelo interesse nas coisas russas. Num dia chuvoso qualquer G. falou-me de sua doença. Disse que estava confuso. Teria que voltar ao Paraná, casa dos pais. Estavámos bastante assustados, mas, sobretudo tristes. Coisa que não se explica. Três meses depois G. morria feito um rato seco. Fétido. Feliz, 100%, não fui nunca mais, mas por uma vez viver foi bom.

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

Dias de frio

G. Amor e psique

Branca tez
tanta limpidez
esses lábios absurdamente seus
olhos contas pura porcelana Ming
ai de mim !
quase acreditei eu creio na feiúra
eu creio em que você disser
que sim
ai de mim que cri
em ti
um buraco na parede com moldura
eu fiz
na procura da ilusão que fosse
absoluta
simulando Caravagios mais perfeitos
em si
a realidade bruta eu vi
verter
meus olhos duas bolhas que flutuam
em meu corpo vão
passivo na sala escura
de televisão
absorver-te num golpe
de vista e então
em meu delírio de realidade virtual
dá vontade de saber cantar
um blues
e o desejo de ser um
final feliz
loucura, histeria e vontade pura
trazem como matéria prima
a paixão
de toda dor e todo toque
de minha lua-mão
mergulhado no éter de teu plexo
solar
amor, psique ou G.

_______________________________________robson leite de albuquerque
_______________________________________rio de janeiro – brasil – 24/08/1992

Domingo, Julho 22, 2007

A teia é clara


Às vezes a teia tecida na construção de um poema nos enreda de forma realmente interessante, e a criação se faz por vias tão pouco objetivas que o fazer é, para mim, tão belo, quanto parte constituinte do poema. É por isso que eu rio (um risinho sarcástico) quando um aspirante a bobalhão diz, sério, em público, que criar é “90% transpiração e 10% inspiração”. Parecem misses em seus lugares comuns de pequeno príncipe. Quanto a mim, peço sempre mais uma dose. E eu e o poema vamos pras putas nos parindo mutuamente. Tem dado certo.

Bom, tudo começou quando no dia 23/01/2007 eu postei um poema chamado Translúcido e para ilustrá-lo, uma foto bonita e simples de dois sapatos posto lado a lado. Dois sapatos masculinos, pretos, novos e quietos. Como mortos, pensei. Intitulei a postagem de O Sapatos do Defunto, coisa que pouco tinha a ver com o poema de então, mas ficou. A imagem tinha-me sido muito forte e permanecia colada na minha mente. À noite, nos Ratos DiVersos, comentei com a Juju Hollanda sobre a vontade de escrever um poema sobre os pertences de um defunto. E da curiosa persistência de certos rituais da antiguidade, no caso, os fúnebres.

Tempo passado, eu pensando. Coisas complicadas, coisas simples. Tem poemas me deixam na espreita, observando o redor, bem atento. Até que numa falha, ou num acerto, fiat lux. Eureka.
Então, poema feito e postado aqui no Rocinante, um comentário de minha amiga Clara Miranda reembaralha as cartas todas. Nele, Clara me cita um poeta que, num movimento justo o oposto ao meu, pensara nas roupas deixadas pelos defuntos. Se meus sapatos queriam se rebelar e se reintegrar ao mundo das coisas, por serem eles sobretudo coisas úteis e bicho homem que aprendesse a morrer nu e sem alegorias. As roupas de Laurence Lerner permaneceriam, para além do mundo das idéias e da natureza, mágicas e fantasmagóricas. Restos de nós mesmos dependurados nos cabides. Onde nossos cheiros, babas, suores, resíduos de urina, fezes, esperma e ciclos menstruais nos manteriam no mundo dos vivos. Para consolo dos vivos, que vagam no vazio deixado pelo defunto. Animismo como lenitivo para a perda e a dor. Só quem passou por isso sabe do que falo.

Pois então, abaixo segue o poema de Laurence Lerner, que extraí de um livro chamado O Casaco de Marx, este escrito por Peter Stallybrass e traduzido por Tomaz Tadeu da Silva, Editora Autêntica. Aliás, o primeiro texto de Carl Marx que li na vida era justamente um em que ele pensava sobre os sapatos ( !!!! ), sua produção em série no século XIX, de como os sapatos foram a primeira conquista material da revolução industrial e, a partir de então, serem mais uma idéia de sapato do que um calçado em si. Mas isso já é outra aranha tecendo a mesma teia...

Resíduo

Minha mãe, ao morrer, deixou um guarda-roupa cheio,
Um mundo meio gasto, meio novo
Roupas de baixo fora de moda, uma fileira de sapatos
Solas viradas para cima, nos fitando,
Um emaranhado de anéis, opalas impacientes,
pulseiras e pérolas baratas;
E, florindo ou resplandecente, de raiom, algodão ou tule,
Uma centena de vestidos, esperando.
Sozinho com aquele esfarrapado passado,
Meu pobre e alquebrado pai vendeu tudo.
O que poderia mais fazer ? O negociante deu de ombros e disse:
“É pegar ou largar, depende de você”
Ele pegou e perdeu os trocados na corrida de cavalos.
O guarda-roupa, vazio, ficou olhando para ele,
anos a fio.